Empreender no Brasil?
Recentemente ouvi de forma compulsiva ao eBook da Audible "Método Exposto", um audio-livro ou rádio novela, que através de dramatizações visa expor como somos explorados e manipulados por pseudos consultores e influencers, sobre como economizar dinheiro, porque não devemos fazer coisas que não dêem dinheiro, e assim mesmo, devemos ser nossos próprios patrões e "trabalhar enquanto eles dormem".
O programa está disponível no feed do podcast do B9 Braincast, de graça, agora que dia 2 de dezembro foi lançada a segunda temporada da série, que foca sobre as BETs. Se quiser ouvir a segunda temporada, você pode criar uma conta grátis no Audible, por 30 dias, para maratonar a série, mas aqui, hoje, vou focar neste episódio em particular da 1a temporada.
Este ano o governo federal isentou pessoas que ganham menos de R$ 5.000,00 do imposto de renda. A tabela do imposto de renda já vinha defasada há anos, e finalmente foi ajustada. Milhares de pessoas gritaram desesperadas de que o governo estaria dando aos pobres e retirando dos trabalhadores para esse benefício. Mas segundo o episódio do podcast e áudio livro Método Exposto, sabe quantas pessoas ganham mais que R$ 6.500,00 ao mês? Segundo diversos órgãos do governo, com R$ 29.000,00 em 2024 você já pertencia ao 1% mais rico da população. Se ganhar acima de R$ 3.500,00 você já está entre os 10% mais ricos do país..
Apenas 5% da população brasileira ganha acima de R$ 5.000,00. Você pode dizer que este dado foi criado pela mídia manipuladora, ou pelo governo, mas este dado está lá, mesmo nos governos de Michel Temer e de Jair Bolsonaro. Quando cobrávamos impostos à partir de rendimentos acima de R$ 2.800,00 mensais, estávamos extorquindo quem já não tinha o suficiente para comer, já que este valor é menos que um salário mínimo e meio. Segundo o DIESE, o salário mínimo ideal para o custo de vida baseado nas capitais do país, áreas com mais concentração populacional, seria de R$ 7.000,00, o que te colocaria nos 3% mais ricos da população brasileira.
Para aqueles que dizem que basta acordar cedo, e trabalhar até não poder mais, não gastar em bobagens, investir o seu dinheiro, e trabalhar enquanto eles dormem, outro dado que pode ser surpreendente é que no Brasil, leva-se em média até 9 gerações para uma família ascender de classe social. O que implica que não importa o quanto você trabalhe, mas sem uma base para poder começar a trabalhar mais tarde, sem um sustento familiar, dificilmente você poderá ganhar mais que seus pais de forma suficiente a subir uma classe social. Para referência, o que cria o slogan "terra das oportunidades" dos Estados Unidos, um país com muito menos disparidade social em relação ao Brasil, é que lá leva-se em média, apenas 3 gerações para uma família poder ascender de classe social.
Em outro experimento, para contradizer as pessoas que afirmam que programas de redistribuição de renda torna as pessoas preguiçosas, como o Bolsa Família, fizeram um anúncio falso de emprego, que alegava pagar para uma rede de fast food, para uma pessoa fritar hamburgues em jornada de 6 horas por dia, na escala 6x1, R$ 15.000,00, a fila de cadastro praticamente explodiu. O site saiu do ar. Por que não se trata se o trabalho é dígno ou não, se trata de quanto ele paga. E com R$ 5.000,00 mensais, até fritar hamburguer pode ser um trabalho digno, para se estar entre os 5% mais ricos do país.
A realidade, contudo, é que o emprego de fritar hambuguer, seis horas por dia, seis dias por semana, com apenas um domingo por mês de folga, oferece um salário de meio salário mínimo, em média. Um valor que em dezembro de 2025 corresponde a R$ 1.000,00 por mês, mais benefícios como refeição, transporte e plano de saúde.
E o que tudo isso tem há ver com impressão 3D?
Hoje me preocupa ver pretensos influenciadores falando sobre como é fácil ganhar dinheiro com impressão 3D. Quando observamos que uma Creality Hi ou Bambulab A1 custa em média R$ 5.000,00, estamos falando de um produto que corresponde ao ganho de ao menos um mês de trabalho de quem pertence a aos 5% mais ricos do país. Não é qualquer dinheiro, não é pouco dinheiro. E quando incentivamos pessoas a arriscarem seus parcos recursos em "empreender" com a impressão 3D, não estamos apenas apostando com o dinheiro das pessoas, mas com suas capacidades de lidarem com market places, de criarem campanhas e anunciarem.
A impressora 3D não deveria ser vendida apenas com a opção de um curso de operação da impressora, mas cursos de empreendedorismo e criatividade deveriam fazer parte desta venda. Eventualmente, por experiências recentes, até mesmo um curso de Windows deveria formar parte do pacote. Já não se trata mais de ofertar uma chance das pessoas trabalharem com algo que possam fazer de casa, enquanto trabalham. Se trata de dar uma chance real de vitória aos que querem transicionar de classe social, sem ter que roubar no jogo, ou seja, se tornarem políticos, coaches ou influencers...
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