A incongruência da arte



O que você tem impresso ultimamente para vender? Tirando objetos práticos do dia-a-dia, como suportes da Alexa ou de joysticks, em colecionáveis? Personagens de anime? Personagens da Marvel na forma Funko? Se um colecionador de objetos e programas do brasil te procura, além de turma da Mônica, o que existe de brasileiro para ser impresso, mesmo?

Cultura é um conceito amplo que se refere ao conjunto de conhecimentos, crenças, costumes, valores, artes, leis, hábitos e modos de vida adquiridos e transmitidos socialmente por um grupo ou sociedade. Abrange tanto o comportamento individual quanto às práticas coletivas, moldando a identidade de um povo e influenciando sua maneira de ver o mundo e interagir com o ambiente.

A Cultura forma um conjunto de valores que também são considerados na hora de produzir sua empresa e seus produtos. Um produto com um nome certeiro é tão bom quanto um produto que produz uma piada pejorativa é ruim. Um bom nome e um bom slogan e você pode conquistar o mundo: “Quem inventou a raquete de matar mosquitos realmente acertou na mosca”, é uma das piadas-slogans que circulam pela internet. Bombril, mil e uma utilidades. Não é assim uma Brastemp. O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa… Por vezes o nome e o slogan podem durar mais que o próprio produto/empresa… 

Tirando produtos de necessidade primária, como comidas, roupas de baixo, quase todos os demais produtos que usamos são frutos da cultura. Quem usa uma camisa social branca pode não saber que os critérios dos botões do pulso, o tamanho da gola e o número de botões são frutos da cultura. A famosa história que as roupas femininas possuem botões espelhados em relação às roupas masculinas, pois as damas da alta sociedade eram vestidas por suas criadas, enquanto os homens se vestiam sós, critério que influencia o vestuário até os dias de hoje.

Mesmo assim, apesar da imensa importância da cultura, que influência nosso gosto por móveis, cores da parede da casa, linhas de um automóvel desejado, nossas roupas e nossas comidas, é muito comum o menosprezo à cultura em alinhamentos políticos mais à direita. Algo que marca profundamente todas as esferas da nossa sociedade. Ninguém quer um filho cantor, uma filha atriz, um afilhado escritor ou uma afilhada poeta. As chances de sucesso nesse mercado além de poucas, são difíceis de mensurar para quem tem uma carreira CLT com plano de progressão dentro da empresa.

Todos consomem cultura, conscientes ou não deste fato, mas muito poucos querem valorizar a cultura. O Brasil vem finalmente colhendo os frutos de uma questionável campanha de transformar impostos em projetos culturais, que poderia ser melhor conduzida, poderia ser aprimorada e melhor fiscalizada, mas é um projeto que existe e é o que temos. Após muitos anos deste projeto não apenas obtivemos nosso primeiro Oscar, como vivemos às vésperas de mais um filme com 4 indicações, O agente secreto, com Wagner Moura. 

O prêmio que será bem recebido se vier, não será um mérito exclusivo da produção brasileira, o próprio Wagner Moura trilhou o caminho de outros brasileiros que foram fazer escola lá fora para atuação. Depois dos filmes que o impulsionam como Tropa de Elite 1 e 2, vieram os filmes norte-americanos, Elysium, a série Narcos da Netflix, e outros filmes como O agente oculto, Guerra civil (não o da Marvel, o outro) e até mesmo seu trabalho de dublador, no filme original em inglês, no papel da morte no filme O gato de botas. Curiosamente, ele não dubla a si próprio no filme em português.

Rodrigo Santoro e Alice Braga abriram as portas para uma nova geração tentar a sorte lá fora. Mais recentemente, Selton Mello se soma ao time de brasileiros no estrangeiro, estreando no filme Anaconda com Paul Rudd e Jack Black, em produções de um país que entende que cultura pode ser um negócio, eventualmente mercantilizando demais certos temas, mas por outro lado, buscando o equilíbrio que permita a quem escolher a cultura como profissão, ter uma carreira. 

Aqui vivemos a dicotomia da “Globo mente”, produções de baixo orçamento da TV Record, ou à simples compra de enlatados estrangeiros como a Band. Até mesmo a TV Cultura que já teve produções maravilhosas como “Diário de adolescente”, “No mundo da Lua”, “Ra-tim-bum” e “Castelo Ra-tim-bum” parece viver um hiato de produções. Justamente a Globo que tantos criticam é o canal que mais investe no país em produções culturais. Por que entendeu o jogo, exportar cultura é uma forma de exportação, e com alto valor agregado. 

Não sou contra equilibrarmos o peso dos canais brasileiros, desde que os canais pequenos também venham a investir em cultura, pois sem cultura, não há registros de um povo. Se apenas uma voz contar estes registros, ela terá sempre um viés. É hora de mais vozes se somarem a estas produções. E por isso é hora de pararmos de ver a cultura como coisa de desocupado, preguiçoso ou hippie.


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